terça-feira, 10 de julho de 2012

Gatos, companheiros de silêncio e de escrita





Poetas e escritores de todas as épocas renderam-se ao fascínio dos gatos e com eles compartilharam suas obras e suas vidas

O grande Guimarães Rosa adorava conversar com seus dois gatos persas. Lygia Fagundes Telles declarou seu amor pelos gatos no livro A Disciplina do Amor. T.S.Eliot escreveu o clássico poema O Nome dos Gatos que inspirou o musical Cats, encenado anos a fio na Broadway, com lotação sempre esgotada. Pablo Neruda é o autor de Ode aos Gatos, uma das mais belas descrições da personalidade felina. Thomas Gray escreveu um poema imortalizando sua gata Selima. Victor Hugo tinha um diário no qual escrevia ternamente a seus gatos. A gata branca de Jorge Luiz Borges adorava dormir de barriga para cima – é assim que aparece em várias fotos ao lado do escritor. Edgar Allan Poe fez do gato o tema para alguns de seus melhores contos. Os gatos eram tema constante também para Baudelaire, que dedicou a eles três poemas no seu célebre As Flores do Mal.

Para Ernest Hemingway os gatos eram as únicas criaturas que mereciam ser mimadas incondicionalmente – tinha tanta paixão por eles, que chegou a ter 50 gatos, os quais deixou protegidos em testamento, ao morrer, em julho de 1961. O escritor determinou que seus gatos deveriam ser mantidos com todo o conforto por meio dos rendimentos oriundos de direitos autorais de sua obra. E assim foi feito. A casa em que morava em Key West, na Flórida, foi transformada em The Ernest Hemingway Home & Museum e tem como principal atração 57 bem cuidados gatos – todos descendentes dos primeiros bichanos do escritor.

Como esses, muitos outros escritores, poetas e pensadores de todos os gêneros renderam-se ao fascínio dos felinos e com eles compartilharam suas obras e suas vidas. A lista é notavelmente longa: Lord Byron, Anton Chekov, Collette, Alexander Puskin, Celine, Paul Gallico, Hermann Hesse, H.H. Munro, Thomas Hardy, Edward Lear, Lewis Carroll, Beatrix Potter, W.B. Yeats, Theóphile Gautier, Ray Bradbury, Colette, Honoré de Balzac, Raymond Chandler, Jean Cocteau, Marcel Mauss, Júlio Cortazar, Alberto Moravia, Rudyard Kipling e Charles Perrault (criador do Gato de Botas) adotaram gatos como seus companheiros de silêncio e de escrita e adoravam ou adoram falar deles, escrever sobre eles, transformá-los em personagens de suas histórias.

Também é o gato, com seus mistérios e sua ligação com o encantamento, o animal favorito de muitos autores de ficção científica e terror, como H.G.Wells, Stephen King e Patricia Highsmith. A lista continua com Mark Twain que, da infância compartilhada com 19 gatos, até a velhice, nunca deixou de viver na companhia de pelo menos dois gatos. "Não se imagina uma casa de Mark Twain onde os gatos não reinem supremos", diz um de seus biógrafos. Em sua fazenda em Connecticut viviam 11 gatos. Entre os intelectuais brasileiros os “gateiros” também são muitos: Clarice Lispector, Ana Miranda, Jorge Amado, Ruy Castro, Mario Quintana, Mauro Rasi, só para citar alguns.

Mas o que pode haver de tão intrínseco entre essas duas espécies – gatos e escritores – que as une tanto? “Eles foram feitos para se entender”, afirma a psiquiatra Nise da Silveira no livro Gato, a emoção de lidar. Conhecida por ter transformado seus muitos gatos em co-terapeutas no tratamento de doentes mentais, a doutora Nise nunca teve dúvida de que os gatos são os companheiros ideais para o ser humano. “O gato é remédio para a solidão – a doença mais devastadora de nossos dias”, afirmava. Mas seriam os escritores seres solitários? Talvez solitário seja o ato de escrever e, para isso, não há companhia melhor do que a silenciosa, delicada e elegante presença felina. Talvez seja mais correto pensar que escritores têm a alma livre, capaz de se deixar levar pelo sonho e viver outras vidas por meio de seus personagens. Seria a liberdade – característica essencialmente felina – um desafio para a imaginação de escritores?

Ou será que são os gatos que procuram os escritores? Há gatos que adoram livros e vivem em bibliotecas, como o gato Dewey, um filhote de pelo dourado abandonado que foi adotado por uma bibliotecária da cidade de Spencer, nos Estados Unidos e se transformou em mascote de toda a população. Ele tinha o hábito de escolher o colo de um visitante da biblioteca para dormir todas as tardes. Com um apurado sexto sentido – que todo apaixonado por gato sabe ser natural nos felinos – Dewey escolhia sempre a pessoa mais carente para mimar com seus afagos. Sua história correu os Estados Unidos e se transformou no livro Dewey – Um gato entre livros, escrito em parceria por Vicki Myron (a bibliotecária) e o escritor Bret Witter. Será que os gatos, de maneira geral, não se compadecem ao ver aquela criatura diante do teclado, em companhia apenas de seus pensamentos e letras e, intuitivamente, decidem lhe dar carinho e atenção? Será que os gatos, que odeiam a subserviência, não perceberiam nos escritores um espírito mais aberto, despojado da pretensão humana de se dominar a tudo e a todos? Ou será que os gatos simplesmente apreciam essa companhia pensativa e silenciosa, o som do teclado, o cheiro dos livros? Quem sabe? O fato é que muitas considerações filosóficas já foram tecidas sobre a atração mútua entre gatos e escritores, mas não há conclusões a respeito. Talvez este seja apenas mais um mistério felino entre tantos que vêm desafiando a imaginação humana desde o princípio dos tempos.

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